Autor: António da Silva Araújo
O aumento dos acidentes vasculares cerebrais em Portugal e por todo mundo ocidental, apesar de nas últimas décadas se apostar em campanhas sistemáticas na prevenção, conduz a que esta doença continue a representar uma das principais causas de mortalidade e morbilidade a nível mundial, com impacto a nível pessoal, familiar, social e económico das sociedades. A produção de conhecimento, e a investigação na área das transições que apresentamos, visa sobretudo compreender áreas centrais da enfermagem, e que se constituem altamente sensíveis aos cuidados de enfermagem de reabilitação. Falámos na pessoa com AVC com dependência para os autocuidados e no cuidador informal no assumir do “novo papel”. Neste contexto, emergiu o presente estudo que tem como objetivo principal compreender o processo de transição do cuidador informal da pessoa com AVC e a intervenção do enfermeiro de reabilitação, contribuindo para uma melhor prática de cuidados favorecedora de uma transição saudável, com ganhos positivos para os envolvidos. Para a concretização deste estudo e dar resposta aos objetivos delineados, optamos por uma abordagem qualitativa de carácter exploratório e descritivo. Como estratégia de recolha de dados optamos pela entrevista semi-estruturada que foi dirigida a seis cuidadores informais. Estes obedeceram a um conjunto de critérios de inclusão, nomeadamente serem cuidadores pela primeira vez; não remunerados; ter sido submetidos a programa de intervenção do enfermeiro de reabilitação e cujo destino na alta da pessoa com AVC seja o seu domicílio. Da análise dos dados obtidos, obtivemos um conjunto de áreas temáticas: perceção do cuidador informal da pessoa com AVC sobre o seu papel; fatores dificultadores e facilitadores do processo de transição para o papel de cuidador informal da pessoa com AVC; sentimentos vivenciados pelo cuidador informal da pessoa com AVC; repercussões para o cuidador informal decorrentes do cuidar da pessoa com AVC e os benefícios das intervenções do enfermeiro de reabilitação. Os resultados desta investigação indicam que a maioria dos cuidadores informais é do sexo feminino, com uma média de 54 anos de idade, casados, possuem escolaridade básica, uma situação profissional pouco diferenciada e o grau de parentesco mais representado é o de filho. São reveladores que o investimento nos enfermeiros de reabilitação e o recurso a modelos de intervenção potenciadores de transições bem-sucedidas por parte de cuidadores informais da pessoa com AVC espelha bons resultados e ganhos em saúde. Instruir e treinar as habilidades e promover a aquisição de mestria, identificando as perceções, as dificuldades, os sentimentos, os fatores facilitadores, as repercussões/impactos no cuidador informal da pessoa com AVC, visando um ajustamento e adaptação eficaz, uma integração fluida da nova identidade (ser cuidador), com o intuito de adquirir qualidade de vida e bem – estar ou seja uma transição positiva. Inevitavelmente a produção de conhecimento nesta área conduzirá a implicações a nível da prática (na construção de novos modelos de atuação); na formação dos nossos pares; na gestão (na aposta dos enfermeiros de reabilitação nas equipas) e por último na investigação (noutros contextos e com outros participantes). O desafio é sermos facilitadores em todo o processo de transição.